Peso

Carrego no peito uma saudade intermitente, lembranças de momentos de poesia que emanam de sentimentos. Carrego também a nostalgia das longas prosas, de dividir garrafas de vinho e de cerveja, sentada em belas companhias nos bancos de praça e nos meio-fios da vida. Carrego ainda a saudade das noites de música ruim, de ventos gélidos, de fogueiras que mal conseguiam permanecer acesas. As cartas de baralho soltas, as mãos furtivas a me roubarem isqueiros, os brincos prateados perdidos. Os óculos quebrados em abraços apertados, o amigo derrubado por reflexo, a força que possuo quando o limite é cruzado. O salto quebrado, as roupas rasgadas, o relógio esquecido.

O corpo envolto em cinzas, areia ou ainda molhado de chuva. Os olhos que se fechavam e extraíam sorriso de uma boca há muito selada. Outros olhos rasos de lágrimas quando eu disse adeus. Os gritos que questionavam meu respeito a meu pai, os pneus cantando a me acusar de crueldade, os olhos tristes ao perdoar minha traição, as pernas enfraquecidas pelo desejo que ainda não me permitia, a raiva muda diante dos dedos entrelaçados, a mentira descoberta quando não mais importava, o perdão aceito quando já não amava.

Carrego no peito cada detalhe que já vivi e a ansiedade do que ainda quero viver. Ando cansada da vida. Querendo a serenidade que nunca tive, que por vezes vislumbro naqueles olhos, naquele sorriso que me aquece o coração. Carrego sentimentos demais para não merecer vivê-los todos…

Pequeno relatório do cotidiano

O travesseiro guardou por dias o cheiro do que foi sublime. Respirei, suspirei, me inebriei de nós, sorri me lembrando das conversas, pequenas poesias que nós escrevemos com letras tortas. Assim alimentei a alma enquanto consegui prender as sensações em minha pele e o gosto em minha boca.

A casa parece vazia agora, o que antes era espaço disponível agora é sua ausência. Há urgências que antes não me pareciam incômodas, como as cortinas. Há um silêncio massacrante que por dias sua voz preencheu. Há de novo apenas um prato solitário no escorredor de louça, uma toalha no varal, uma bagunça de roupas. Há um verdadeiro monólogo em três atos escrito em minhas paredes.

Então hoje acordei cedo, tateei as paredes, revirei as lembranças, olhei para tudo, estarrecida. Como quem acorda de um sonho perfeito e leva uma bofetada com a realidade. Minhas escolhas doem, mal sabe ele a força que precisei fazer para conseguir pronunciar aquele derradeiro pedido em nome de tudo que eu sinto. Minha fragilidade estampada na sua despedida, no adeus apressado de quem não queria ver minhas lágrimas de novo.

Agora eu só quero pedir perdão, por não ser digna de receber de volta o sentimento que ofereço. Por tudo que sinto, sinto muito. O sentimento enorme no meu peito explode e deixa novas marcas de chuva, suor e sangue…

O homem que mudou minha vida

Não importa onde os ventos nos levem, não importa o que aconteça amanhã, sequer importa se nunca mais houver nada. Eu lhe devo muito e serei eternamente grata. Em parte, por tudo que ele tem me dado, em parte pelo que consegue tirar de mim.

Tudo culpa daqueles olhares de um tempo atrás. Olhares que percorreram as linhas do meu corpo, como que escaneando para criar uma imagem mental da qual ele queria se lembrar. Nunca tinha sido olhada dessa forma tão meticulosa, que quando me encarava novamente eu pude sentir ele me chamar de linda. Não acreditei, confesso que não acreditei.

O tempo fez seu trabalho e eu achei que estava certa em não ter acreditado. Dias depois, um pequeno gesto, uma inciativa de conversa inocente – como se fosse possível uma conversa inocente entre nós – e logo estávamos pensando como seria.

Nunca vou esquecer aquele primeiro beijo, trêmulo, ansioso, sofrido. Sem dúvida um dos momentos mais doces da minha vida, o dia em que me tornei sua. Ele me pediu mais do que todos os que vieram antes e eu entreguei mais ainda. Tem me feito tão bem atender aos pedidos que eu preciso fazer ainda mais.

Os olhares que me contornam, o hábito de me chamar de gostosa todo dia até eu acreditar, um sorriso que me envolve, um desejo quase desesperado, uma atenção diária que é quase um vício. De tanto ouvir ele me dizer, comecei a acreditar. Eu comecei a mudar, fui para a academia, estou perdendo peso e saindo mais arrumada, confiante.

Então surgiram os olhares de desconhecidos pela rua. Aqueles olhares de desejo que eu nunca tinha recebido na vida. Olhares de quando um homem acha uma mulher bonita. Não importa de quem são, não importa se não tomam atitude, olhares que me fazem carinho e me roubam sorrisos.

Hoje, me sinto realmente linda. Eu me esforcei pra isso, mas não esqueço em momento algum da transformação que ele causou. Estes olhares de tantos outros que recebo eu devo a ele. Ele mudou a forma como eu me via por dentro, eu mudei a parte de fora. Hoje, eu transpareço. Porque foram seus olhares, seu desejo, suas palavras que me fizeram mulher.

Enquanto ele quiser, terá sempre o meu melhor. Principalmente porque ele foi capaz de ver o melhor de mim quando eu ainda não via. E porque ele insistiu muito até me fazer ver. Foi ele quem me deu de presente a auto-estima que nunca tive.

Não importa onde os ventos nos levem, não importa o que aconteça amanhã, sequer importa se nunca mais houver nada. Eu lhe devo muito e serei eternamente grata.

Precisa-se de Maestro

Este dueto tem sido o espetáculo mais difícil de todos os tempos. Como uma obra para dois solistas, executamos nossos melhores momentos em separado. Não que sejamos virtuosis, mas creio que já passamos do momento em que deveríamos tocar juntos.

Quando escolho as partituras, quando dou o melhor de mim, é triste sentir as pausas solitárias, quando você podia estar ao lado e tocar sua parte, sinto tua ausência e lamento aquele bilhete avisando que você está d’outro lado do mundo. Então às vezes escuto você tocar ao longe, aquele seu dueto, para mim, mas não comigo.

Me pergunto se não precisamos de um maestro que nos coloque no mesmo palco, no mesmo momento, tocando a mesma música. Porque a plateia já anda a espionar os ensaios, a plateia já anda a comentar o que nós dois ainda relutamos admitir: estamos fora de compasso há tempo demais e não há razão pela qual estamos adiando o óbvio.

Outro dia até falei com o maestro, nas entrelinhas ele me disse que você apenas acompanha, que seu dueto é tão descompassado quanto eu sou em carreira solo. Eu deveria te dizer que quero fazer nosso dueto, mas não tenho coragem, não sem que você me diga que sabe que seu espetáculo atual não é bom.

Então agora eu vejo que temos pouco tempo antes que eu diga adeus, antes de mudar de calçada quando aparece uma flor.