Arquivos de 2008

A ostra

Estava a ostra bem quieta, se fazendo parada, aquele jetinho meio ostra. Aí veio a areia e se meteu. A ostra tão acostumada a ser sozinha, se incomodou um pouco – ou muito – mas logo se encantou com a companhia e logo encheu a areia de presentes, deu-lhe um pedaço de si, envolveu aquele pequeno grão com o que tinha de mais belo.

Ostra e areia andam juntinhas ultimamente. Não se sabe ao certo sobre a areia, mas a ostra morre de medo de que lhe levem aquele grão. Porque se lhe tirarem aquela invasora, levarão também um pedaço dela. E porque no fundo o que a ostra tem medo é de ficar sozinha de novo. E mais medo ainda tem a ostra de que a areia tenha vindo só para machucar e dia desses queira ir embora.

Perdão por ser ostra, minha amiga areia.

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Sozinhez

Fazia tempo que essa sensação não me atropelava. Foram vinte ou trinta segundos, em que me senti absolutamente sozinha. As gracinhas dos homens saindo do bar tiveram, como sempre, piadas ácidas como resposta, para que não soubessem o queanto eu me roía.

Eu só estava esperando um táxi, não é exatamente uma situação constangedora, mas me deu uma sensação de estar construindo um castelo de areia. Aos 26 anos, olho para o espelho e vejo que não acumulei nada além de histórias para contar. Poderia comprometer muita gente, mas fora isso me ocorre que não conquistei nada até hoje, sabe? Não, ninguém sabe (viu, bb?). Outro dia eu estava brincando, dizendo que podia me mudar por uns anos para a Patagônia, porque não tenho nada que me prenda a lugar nenhum, nem cachorro eu tenho!!!! Mas não é bem verdade. Monto uma mentira tão forte que de alguma forma eu devo estar mentindo até a mim mesma.

E não, não é o caso de dizer que sei disso, não sei lidar com isso. Eu nunca fui boa em enfrentar ninguém, porque cargas d’água eu seria capaz de enfrentar a mim mesma? Se tanta gente por aí tem medo de mim ou sequer consegue me entender, porque eu seria diferente? É meio que um tipo de transtorno bipolar, eu luto comigo mesma. E perco. De alguma forma, pode-se dizer que estou ganhando também, só não sei onde, só não sei o quê. Há cinco anos, eu estaria batendo palmas. Hoje, eu vou dormir enquanto… enquanto… nada.

Eu me resumo em nada.

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Quantos?

Quantos podem ser levados da mesma forma? Quantas pessoas podem nos ser tiradas assim de forma repentina, mesmo que as trombetas gritem com antecedência, não há preparação para dias como hoje. Repetições de tristezas e dores, que despedaçam a família, fraquejam pernas e corações. 

Engasgada com lágrimas, penso nas coisas de que me lembro. Fico triste demais ao perceber que não consigo me lembrar de um momento sequer de alegria que tenha passado com ele nos últimos dez anos. Eu o amava, mas também colecionava mágoas de alguns acontecimentos que nunca pararam de sangrar. E hoje, diante da morte, em silêncio eu pedi perdão. Porque hoje me dei conta que, embora por razões justas, me afastei. Passei quase dez anos distante, sempre o máximo que pude, calculando o risco de estar perto de novo e ser magoada de novo. Hoje me dei conta de que errei e por mais razões que eu tenha, não deveria ter sido tão cruel.

Aqueles olhos azuis nunca mais brilharão para mim. A última vez em que isso aconteceu foi no velório do pai, foi ele quem conseguiu me fazer arredar o pé do lado do túmulo. Foi ele quem me disse vem filha, você sabe que não tem mais nada aí. É uma pena que hoje eu não poderei estar lá, segurando a mão de meus primos como eles fizeram por mim há um ano e meio. Mas meu coração está. Ou ao menos os pedaços desta tola parte de mim. Hoje eu vou precisar de ajuda para dormir.

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Por ti

Eu só queria que ficasse bem entendido que as mãos com os dedos entrelaçados são muito mais importantes que qualquer outro momento. Que um cheiro, um sorriso, uma música ou um sussurro, essas pequenas coisas me marcam muito mais do que horas de sexo, do que a chance de me enrolar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, do que a zoeira em tempo integral.

Eu sonho demais com o sossego, com passar tardes de sol aninhada em um colo carinhoso, dormir abraçada, puxar cobertor e acordar com aquele cheiro de meu bem. Eu sonho demais. Pena que acordo sozinha.

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