Arquivos de 2011

O homem que mudou minha vida

Não importa onde os ventos nos levem, não importa o que aconteça amanhã, sequer importa se nunca mais houver nada. Eu lhe devo muito e serei eternamente grata. Em parte, por tudo que ele tem me dado, em parte pelo que consegue tirar de mim.

Tudo culpa daqueles olhares de um tempo atrás. Olhares que percorreram as linhas do meu corpo, como que escaneando para criar uma imagem mental da qual ele queria se lembrar. Nunca tinha sido olhada dessa forma tão meticulosa, que quando me encarava novamente eu pude sentir ele me chamar de linda. Não acreditei, confesso que não acreditei.

O tempo fez seu trabalho e eu achei que estava certa em não ter acreditado. Dias depois, um pequeno gesto, uma inciativa de conversa inocente – como se fosse possível uma conversa inocente entre nós – e logo estávamos pensando como seria.

Nunca vou esquecer aquele primeiro beijo, trêmulo, ansioso, sofrido. Sem dúvida um dos momentos mais doces da minha vida, o dia em que me tornei sua. Ele me pediu mais do que todos os que vieram antes e eu entreguei mais ainda. Tem me feito tão bem atender aos pedidos que eu preciso fazer ainda mais.

Os olhares que me contornam, o hábito de me chamar de gostosa todo dia até eu acreditar, um sorriso que me envolve, um desejo quase desesperado, uma atenção diária que é quase um vício. De tanto ouvir ele me dizer, comecei a acreditar. Eu comecei a mudar, fui para a academia, estou perdendo peso e saindo mais arrumada, confiante.

Então surgiram os olhares de desconhecidos pela rua. Aqueles olhares de desejo que eu nunca tinha recebido na vida. Olhares de quando um homem acha uma mulher bonita. Não importa de quem são, não importa se não tomam atitude, olhares que me fazem carinho e me roubam sorrisos.

Hoje, me sinto realmente linda. Eu me esforcei pra isso, mas não esqueço em momento algum da transformação que ele causou. Estes olhares de tantos outros que recebo eu devo a ele. Ele mudou a forma como eu me via por dentro, eu mudei a parte de fora. Hoje, eu transpareço. Porque foram seus olhares, seu desejo, suas palavras que me fizeram mulher.

Enquanto ele quiser, terá sempre o meu melhor. Principalmente porque ele foi capaz de ver o melhor de mim quando eu ainda não via. E porque ele insistiu muito até me fazer ver. Foi ele quem me deu de presente a auto-estima que nunca tive.

Não importa onde os ventos nos levem, não importa o que aconteça amanhã, sequer importa se nunca mais houver nada. Eu lhe devo muito e serei eternamente grata.

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Precisa-se de Maestro

Este dueto tem sido o espetáculo mais difícil de todos os tempos. Como uma obra para dois solistas, executamos nossos melhores momentos em separado. Não que sejamos virtuosis, mas creio que já passamos do momento em que deveríamos tocar juntos.

Quando escolho as partituras, quando dou o melhor de mim, é triste sentir as pausas solitárias, quando você podia estar ao lado e tocar sua parte, sinto tua ausência e lamento aquele bilhete avisando que você está d’outro lado do mundo. Então às vezes escuto você tocar ao longe, aquele seu dueto, para mim, mas não comigo.

Me pergunto se não precisamos de um maestro que nos coloque no mesmo palco, no mesmo momento, tocando a mesma música. Porque a plateia já anda a espionar os ensaios, a plateia já anda a comentar o que nós dois ainda relutamos admitir: estamos fora de compasso há tempo demais e não há razão pela qual estamos adiando o óbvio.

Outro dia até falei com o maestro, nas entrelinhas ele me disse que você apenas acompanha, que seu dueto é tão descompassado quanto eu sou em carreira solo. Eu deveria te dizer que quero fazer nosso dueto, mas não tenho coragem, não sem que você me diga que sabe que seu espetáculo atual não é bom.

Então agora eu vejo que temos pouco tempo antes que eu diga adeus, antes de mudar de calçada quando aparece uma flor.

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Vita Brevis

Advertência: para que este texto seja bem entendido, é necessário ter lido anteriormente o livro Vita Brevis, de Jostein Gaarder.

Enfim chega o dia de te escrever, Aurel, muitas vezes me perguntei quanto tempo eu levaria para sentir tal necessidade. Eu olho para as coisas que tens dito e não consigo compreender como chegamos a este ponto. Tuas lindas declarações, teu olhar brilhante quando me ouvia falar do mundo, tudo virou névoa.

O que você quer de mim? Não me diga “nada”, Aurel, “nada” foi o que te pedi, e não te bastou. Era realmente preciso encher a cesta? Não te acuso de me ter roubado as estrelas, apenas reclamo meu direito adquirido em tuas palavras. Onde deveria ter enterrado tantas expectativas que me fizeste construir?

Tua vida segue e nela não há mais lugar para mim, deixaste bem claro que não seria adequado. Eu te deixei em paz, Aurel. Por que então, quando atendi teu pedido, tu te viraste em minha direção e me atacaste com tamanha força? Onde foram as pequenas poesias e toda nossa prosa?

Tua mão gélida estendida, tua forma correta é apenas o reflexo do mundo plástico em que tu te enquadras, um mundo no qual eu nunca me encaixei e tu sempre soubeste. Por que me acusas de ser hoje quem sempre fui? Deixaste o mundo me julgar baseado na média esperada, tu me julgaste pela média! Tu fizeste igual àqueles que diversas vezes criticaste!

Acaso sabes o quanto tuas corretas obrigações me são ofensivas? Se não podes pensar e ver além dos outros, Aurel, és exatamente como os outros. Fala com teu Deus, pois ele perdoará tuas confissões e salvará tua alma. Eu não sou tão soberana.

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Três de Espadas

Levou tempo, Deus, como levou tempo. Precisei de seis meses para chegar a esta conclusão. Hoje tive vontade de escrever para o ex-namorado, hoje me dei conta que as feridas cicatrizaram. Por razões que nem cabem aqui, não escrevi nada, não mandei nada. Nem importaria mandar, seria apenas cutucar a ferida.

É que hoje eu queria dizer que eu realmente sinto muito que não deu certo. Que houve um momento em que eu acreditei, sabe? Eu, que poucas vezes na vida achei que isso seria possível, pensei a longo prazo. Quase um ano não é pouca coisa, não sei esquecer tudo que aquele relacionamento quase foi, não sei apagar tudo assim tão fácil.

Não é arrependimento de ter terminado, não é vontade de tentar de novo, não é amor. É só a dor de ter visto tudo que sonhamos juntos acabar. Eu acreditei, eu quis, eu amei. Só não foi o suficiente.

Agora eu sei que tive meu “amor Grand Hotel”.

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